Por que a urgência importa: reconheça cedo para salvar vidas
Diante de uma dor intensa no peito ou nas costas, cada minuto conta. Entre as causas possíveis, a dissecção aórtica é uma das mais graves — e também uma das mais difíceis de reconhecer fora do hospital. Ela é relativamente rara, mas quando ocorre pode evoluir rapidamente para complicações fatais se não for tratada com urgência. Saber identificar sinais de alerta e agir sem demora é o que separa um susto de um desfecho trágico.
A boa notícia é que informação e atenção aos fatores de risco aumentam muito a chance de um diagnóstico precoce. Neste guia, você entenderá como a doença acontece, quais sintomas exigem ação imediata, como é o tratamento e que medidas práticas podem reduzir o risco no dia a dia. Use este conhecimento para você, para sua família e para orientar amigos em situações críticas.
O que é e como acontece dentro do corpo
Quando falamos em dissecção de aorta, estamos nos referindo a uma separação anormal das camadas da parede da maior artéria do corpo. A aorta é formada por três camadas — íntima, média e adventícia — e, na dissecção, o sangue invade um “caminho falso” entre essas camadas, fragilizando toda a estrutura.
Essa separação pode ocorrer após uma pequena ruptura na camada interna, geralmente impulsionada por pressão arterial muito elevada. O fluxo sob alta pressão estende a delaminação ao longo do vaso, podendo comprometer a irrigação de órgãos vitais e até causar ruptura da aorta. Quando isso acontece, a hemorragia pode ser maciça, com risco alto de morte.
Mesmo sem ruptura, a dissecção pode bloquear artérias que saem da aorta, levando à isquemia em regiões como intestinos, rins, cérebro e pernas. Por isso, a apresentação clínica pode lembrar outras doenças, confundindo o diagnóstico. Embora rara — cerca de 3 casos por 100 mil pessoas por ano — sua gravidade exige atenção redobrada aos sintomas e ao contexto clínico.
Por que é uma emergência absoluta
A parede dissecada fica dramaticamente mais frágil. Cada batimento cardíaco pode ampliar o dano e as complicações. Controlar a pressão rapidamente e definir a necessidade de cirurgia são decisões que precisam ser tomadas nas primeiras horas. Quanto antes o atendimento, melhores as chances de estabilização e de evitar sequelas.
Quem trata e quando
O tratamento depende da localização da dissecção. Quando envolve a parte ascendente da aorta (próxima ao coração), é uma urgência de cirurgia cardíaca. Quando acomete a porção descendente (torácica para baixo), costuma ser avaliada e tratada pelo cirurgião vascular, com opções que vão do manejo clínico à correção endovascular.
Fatores de risco: quem deve ficar mais atento
Alguns elementos fragilizam a parede arterial ou aumentam a pressão de forma aguda, abrindo espaço para a dissecção aórtica. Conhecê-los ajuda a calibrar o nível de alerta e, mais importante, a agir preventivamente.
Condições genéticas e histórico familiar
– Síndrome de Marfan: alterações no tecido conjuntivo que enfraquecem a aorta.
– Síndrome de Ehlers-Danlos (principalmente o tipo vascular): fragilidade de vasos com risco de ruptura.
– Outras doenças do colágeno e mutações relacionadas à parede arterial.
– Histórico familiar de dissecção ou aneurisma de aorta: aumenta a probabilidade e recomenda rastreio proativo.
Sinais associados a essas condições (como estatura elevada com membros longos, hipermobilidade articular, pele muito elástica, miopia importante ou alterações de válvulas cardíacas) merecem atenção médica especializada ao longo da vida.
Hábitos e condições adquiridas
– Hipertensão arterial (pressão alta): principal fator de risco, especialmente quando não controlada.
– Tabagismo: agride diretamente a camada interna das artérias e acelera a degeneração.
– Uso de cocaína e outras drogas simpaticomiméticas: picos de pressão e estresse sobre a aorta.
– Aneurisma de aorta prévio: parede já alterada e mais vulnerável.
– Inflamações das artérias (vasculites) e infecções específicas: enfraquecem o vaso.
– Idade avançada e sexo masculino: risco ligeiramente maior, embora possa ocorrer em qualquer pessoa.
– Exercícios de altíssima intensidade sem acompanhamento, sobretudo em pessoas com aorta dilatada.
Dica prática: se você tem um ou mais fatores de risco, converse com seu médico sobre aferições regulares da pressão, ultrassom/angio-TC por indicação e metas de controle individualizadas.
Sintomas, sinais de alarme e quando suspeitar
A apresentação mais típica é uma dor súbita e muito intensa, descrita por muitos pacientes como “rasgando” ou “dilacerante”. Essa dor costuma surgir no peito e/ou nas costas, podendo migrar ao longo do trajeto da aorta. Mas há variações importantes que podem confundir.
A dor que chama atenção
– Início abrupto, muitas vezes no repouso ou após esforço.
– Localização no tórax anterior, entre as escápulas (região dorsal) ou ambos.
– Característica dilacerante, como se algo estivesse “rasgando por dentro”.
– Pode migrar: do peito para as costas, ou descer em direção ao abdômen.
– Frequente associação com pressão arterial muito alta.
Outras queixas que podem acompanhar: sudorese fria, palidez, náuseas, vômitos, sensação de desmaio iminente. Em pessoas com dissecção aórtica, essas pistas costumam vir juntas, numa intensidade fora do padrão habitual de dores musculares ou indigestão.
Manifestações menos óbvias (por órgãos afetados)
– Sistema nervoso: fraqueza ou dormência em um lado do corpo, dificuldade para falar, confusão mental (pode simular um AVC).
– Coração: dor torácica que lembra infarto; alterações no eletrocardiograma podem coexistir.
– Intestino: dor abdominal intensa, vômitos, distensão (sugere isquemia intestinal).
– Rins: diminuição do volume urinário, dor lombar.
– Membros inferiores: dor, palidez, frio e fraqueza nas pernas, com assimetria de pulsos.
– Síncope (desmaio): especialmente em dissecções que comprometem o fluxo ao cérebro ou evoluem com tamponamento cardíaco.
Atenção ao contexto: se você ou alguém próximo tem hipertensão, fuma, usa cocaína ou possui histórico familiar de problemas de aorta, qualquer dor torácica súbita e intensa deve acender um alerta para dissecção aórtica. Melhor errar por excesso de cuidado do que perder a janela de tratamento.
O que fazer diante da suspeita: passo a passo no mundo real
Agir rapidamente e de forma correta altera o desfecho. Em caso de suspeita, siga estas etapas simples e diretas.
Antes de chegar ao hospital
1. Acione ajuda imediatamente: ligue para o SAMU/192. Evite dirigir por conta própria.
2. Mantenha repouso absoluto: sente-se ou deite-se com o tronco levemente elevado.
3. Evite esforços e não se automedique: especialmente anticoagulantes ou anti-inflamatórios sem orientação.
4. Controle o ambiente: reduza estímulos, estimule respirações lentas e profundas para diminuir o estresse.
5. Tenha informações à mão: relate início da dor, local, intensidade, fatores de risco e medicamentos em uso.
Se você estiver acompanhando alguém, observe sinais de piora, como sonolência intensa, desmaio, confusão ou fraqueza em um lado do corpo, e forneça essas informações à equipe de resgate.
Na chegada ao pronto-socorro
– Triagem rápida: relate a expressão “dor torácica súbita, muito intensa, parecendo rasgar” e fatores de risco.
– Monitorização e controle da pressão: geralmente com medicação intravenosa.
– Exames direcionados: eletrocardiograma e exames laboratoriais para descartar infarto, radiografia de tórax e, se necessária, tomografia com contraste para confirmar o diagnóstico.
– Evite sair do setor de emergência sem uma explicação clara: se a dor foi típica, insista em avaliação completa até que a hipótese de dissecção aórtica seja adequadamente descartada.
Lembre-se: profissionais de saúde consideram a dissecção em diagnósticos diferenciais de dor torácica, mas a descrição detalhada dos sintomas ajuda a acelerar o caminho até o exame certo.
Como é feito o diagnóstico e a classificação
Confirmar a suspeita depende de exames de imagem e de uma avaliação clínica minuciosa. O objetivo é identificar rapidamente a localização da dissecção, a extensão e quais ramos arteriais foram comprometidos.
Diagnóstico da dissecção aórtica
– Tomografia computadorizada (angio-TC) com contraste: padrão mais utilizado na emergência por ser rápida, precisa e amplamente disponível.
– Ecocardiografia transesofágica (ETE): útil quando o paciente está instável ou há suspeita de acometimento da aorta ascendente e das válvulas cardíacas.
– Ressonância magnética: alternativa em cenários específicos e para acompanhamento, quando o tempo permite.
– Radiografia de tórax: pode sugerir alargamento do mediastino, mas não confirma nem exclui o diagnóstico sozinha.
– Eletrocardiograma e marcadores cardíacos: ajudam a diferenciar de infarto, lembrando que as duas condições podem coexistir.
Detalhes clínicos que orientam a equipe: início súbito da dor, sua migração, diferença de pressão arterial entre braços, sopros novos no coração, sinais neurológicos e pulsos assimétricos nos membros.
Classificação: por que ela muda o tratamento
A classificação de Stanford é a mais usada:
– Tipo A: envolve a aorta ascendente (próxima ao coração).
– Tipo B: acomete somente a aorta descendente (após a origem da artéria subclávia esquerda).
Em linhas gerais:
– Tipo A: costuma exigir cirurgia emergencial, devido ao risco de complicações fatais (como tamponamento cardíaco, insuficiência valvar e ruptura).
– Tipo B: frequentemente é tratado inicialmente com controle rigoroso da pressão e dor; intervenções endovasculares (como stent) são indicadas se houver complicações (isquemia de órgãos, dor incontrolável, expansão do falso lúmen, ruptura iminente).
Tratamento e recuperação: do controle da pressão à cirurgia
O primeiro passo em qualquer cenário é estabilizar o paciente. Controlar a frequência cardíaca e reduzir a pressão arterial diminui a força do jato de sangue sobre a aorta, interrompendo a progressão da dissecção.
Controle clínico inicial
– Redução da pressão e da força de ejeção do coração: geralmente com beta-bloqueadores e vasodilatadores intravenosos, conforme protocolos.
– Analgesia potente: dor bem controlada reduz o estresse e a descarga adrenérgica.
– Monitorização contínua: pressão, frequência cardíaca, perfusão de órgãos e sinais de complicação.
Em muitos casos de tipo B sem complicações, o manejo clínico rigoroso é suficiente na fase aguda, com vigilância intensiva e reavaliações por imagem.
Intervenção cirúrgica e endovascular
– Tipo A (aorta ascendente): cirurgia emergencial aberta, frequentemente envolvendo substituição do segmento da aorta e, quando necessário, correção valvar. É a medida que salva vidas nesse cenário.
– Tipo B complicado: reparo endovascular com endoprótese (TEVAR) é frequentemente preferido, por ser menos invasivo e eficaz em excluir o falso lúmen.
– Situações especiais: quando a dissecção compromete ramos importantes (como mesentérica superior, renais ou ilíacas), podem ser necessárias abordagens combinadas para restaurar o fluxo.
Importante: a decisão entre cirurgia aberta e endovascular é personalizada, baseada na anatomia da dissecção, condição clínica do paciente e experiência da equipe multidisciplinar (cirurgia vascular e/ou cardíaca, cardiologia, terapia intensiva e radiologia intervencionista).
Prevenção e acompanhamento a longo prazo
A fase pós-alta é tão estratégica quanto o tratamento inicial. A aorta precisa de vigilância contínua, pois o risco de complicações tardias ou nova dissecção existe, especialmente se persistirem fatores de risco.
Metas de pressão e hábitos protetores
– Metas de pressão: em geral, manter pressão sistólica em níveis mais baixos, conforme orientação médica personalizada.
– Medicamentos: adesão rigorosa a anti-hipertensivos, especialmente beta-bloqueadores; ajustes são feitos em consultas de seguimento.
– Abandono do tabagismo: prioridade absoluta para reduzir dano arterial.
– Evitar drogas ilícitas, especialmente cocaína: elimina gatilhos de picos hipertensivos perigosos.
– Atividade física segura: exercícios aeróbicos moderados e regulares, com progressão orientada; evitar picos de esforço e levantamento de cargas extremas sem liberação médica.
– Alimentação cardioprotetora: foco em vegetais, frutas, proteínas magras, grãos integrais, redução de sal e ultraprocessados.
– Sono e estresse: controlar estresse crônico e garantir boa qualidade do sono ajudam a manter a pressão sob controle.
Estratégias simples funcionam melhor quando viram rotina. Pequenos ajustes diários, repetidos consistentemente, constroem proteção real para sua aorta.
Vigilância por imagem e sinais de alerta
– Agende reavaliações: tomografia, ressonância ou ecocardiografia transesofágica, conforme protocolo do seu especialista.
– Observe sintomas recorrentes: nova dor torácica ou dorsal súbita, desmaios, alterações neurológicas, dor abdominal intensa ou assimetria de pulsos exigem avaliação imediata.
– Para quem tem condições genéticas: acompanhamento em centros com experiência em aorta, avaliação de familiares de primeiro grau e aconselhamento genético quando indicado.
Não negligencie as consultas. A dissecção aórtica pode exigir ajustes de tratamento ao longo do tempo, inclusive intervenções programadas para prevenir problemas maiores no futuro.
Mitos, verdades e decisões que salvam vidas
Nem toda dor no peito é infarto — e nem toda dissecção se apresenta da mesma forma. Entender as nuances é essencial para agir corretamente.
Esclarecendo confusões comuns
– “É rara, então não preciso me preocupar”: rara não significa irrelevante. Quando ocorre, a janela de tratamento é curta.
– “Se foi nas costas, não é coração”: dissecções torácicas frequentemente doem nas costas entre as escápulas.
– “Melhor tomar qualquer remédio e ver se passa”: automedicação atrasa o diagnóstico e pode piorar o quadro. Procure ajuda imediatamente.
– “Se o eletrocardiograma vier normal, estou livre”: ECG normal não descarta dissecção. É preciso avaliação por imagem direcionada.
– “A pressão está alta só de nervoso”: em dor intensa, a pressão sobe, mas essa “explicação” não deve atrasar a investigação quando há sinais de alarme.
Decisões práticas que fazem diferença
– Dê nome à dor: descreva como súbita, dilacerante e migratória se for o caso.
– Compartilhe seus riscos: hipertensão, tabagismo, uso de cocaína e histórico familiar são dados críticos na triagem.
– Escolha o caminho mais seguro: chame o SAMU/192; não tente “esperar passar”.
– Afaste gatilhos: mantenha sua pressão em metas, não fume e evite picos de esforço sem orientação.
Quando pacientes e profissionais trabalham com a mesma informação, a probabilidade de identificar e tratar a dissecção aórtica no tempo certo aumenta exponencialmente.
Perguntas rápidas que ajudam na hora H
– A dor começou de repente e é a pior que já senti no peito ou nas costas?
– A dor parece “rasgar por dentro”, migra ou mudou de localização?
– Tenho pressão alta, fumo, uso/usei cocaína ou tenho histórico familiar de aneurisma/dissecção?
– Sinto alguma fraqueza, formigamento, dificuldade para falar ou assimetria de pulsos?
– A dor não melhora ao mudar de posição e veio acompanhada de suor frio, náuseas ou desmaio?
Se você respondeu “sim” a uma ou mais perguntas, procure atendimento emergencial sem demora.
Ao terminar esta leitura, você já sabe reconhecer os sinais essenciais, entende os fatores de risco e conhece o passo a passo que salva vidas. Dissecção aórtica é uma urgência em que a informação certa, na hora certa, muda tudo. Se algo não parece normal, confie no seu instinto, busque ajuda imediata e incentive quem você ama a fazer o mesmo. Para avaliar seu risco individual, marcar exames preventivos ou tirar dúvidas específicas, agende uma consulta com um especialista em cirurgia vascular ou cardiologia — seu coração e sua aorta agradecem.
O Dr. Alexandre Amato, cirurgião vascular, discute a dissecção de aorta, uma condição grave, mas relativamente rara, que envolve a separação das camadas da parede da aorta. A dissecção ocorre quando o sangue entra entre essas camadas, podendo levar a rompimentos e sangramentos severos ou aneurismas. Os principais fatores de risco incluem hipertensão, tabagismo, uso de drogas como cocaína, aneurismas anteriores e doenças do colágeno, como a síndrome de Marfan. Os sintomas típicos são dores no peito ou nas costas, frequentemente descritas como dilacerantes, além de náuseas, vômitos e, em casos graves, AVC ou isquemia intestinal. O tratamento inicial envolve a redução da pressão arterial, podendo ser clínico ou cirúrgico, dependendo da localização da dissecção. É essencial um diagnóstico rápido, pois os sintomas podem se assemelhar a um infarto. O vídeo conclui com um convite para que os espectadores compartilhem o conteúdo.

