Antes de começar: segurança em primeiro lugar
Retirar pontos é uma etapa importante da recuperação pós-operatória, e fazer isso no momento certo e da maneira correta evita complicações, como infecções e abertura da ferida. Embora seja um procedimento simples quando indicado, nem sempre é algo que deve ser feito em casa. Idealmente, a remoção ocorre em consulta com seu cirurgião ou por uma enfermeira treinada. Se houver autorização expressa do seu médico e a ferida estiver cicatrizando bem, é possível considerar a retirada em condições adequadas e com todos os cuidados de higiene.
Antes de qualquer tentativa de retirar pontos, avalie a ferida e observe sinais de alerta. Se houver dor intensa, vermelhidão progressiva, saída de pus, febre ou mau cheiro, não mexa no local. Procure atendimento. Lembre-se: cada cirurgia tem suas particularidades; siga as instruções personalizadas do profissional que o operou.
O que você vai encontrar neste guia
– Quando é seguro retirar pontos e o que influencia esse tempo
– Diferenças entre fios absorvíveis e não absorvíveis, e padrões de sutura comuns
– Como avaliar a ferida e preparar o local com higiene rigorosa
– Um passo a passo autorizado para remoção de pontos simples
– Cuidados após a retirada e sinais de alerta para buscar ajuda
Quando é a hora certa de retirar pontos?
O tempo de retirada depende de múltiplos fatores: tipo de cirurgia, local do corpo, tensão sobre a pele, comorbidades (como diabetes), idade, tabagismo e qualidade da cicatrização. Em geral, a maioria dos pacientes retorna ao consultório entre 7 e 14 dias após a cirurgia, mas há exceções. Remover cedo demais pode levar à abertura da ferida; deixar tarde demais pode aumentar o risco de marcas e inflamação local.
A decisão final deve considerar a avaliação clínica do cirurgião. Ele conhece o fio utilizado, a técnica de sutura e o comportamento esperado da sua cicatriz. Sempre que possível, programe a consulta de revisão antes mesmo da alta, para evitar atrasos ou improvisos.
Janelas de tempo por região do corpo (estimativas)
– Face e pescoço: 5 a 7 dias (pele mais bem vascularizada e cicatrização rápida)
– Couro cabeludo: 7 a 10 dias
– Tronco (tórax e abdômen): 10 a 14 dias
– Membros superiores e inferiores (regiões sem muita tensão): 10 a 14 dias
– Áreas de grande tensão/ flexão (joelho, cotovelo, ombro, dorso de mão/ pé): 14 a 21 dias
– Áreas submetidas a movimentação ou esforço: frequentemente necessitam período maior
Observação: Estas janelas são orientativas. Cirurgias diferentes (plásticas, vasculares, gerais, ortopédicas) possuem recomendações específicas. Siga o plano do seu cirurgião.
Sinais de que ainda não é hora
– Vermelhidão intensa e quente ao toque se expandindo
– Saída de secreção purulenta, amarelada ou com odor
– Dor que piora em vez de melhorar
– Aberturas entre os pontos, sangramento ativo ou pele frágil
– Febre ou mal-estar geral
Se notar qualquer um desses sinais, não tente retirar pontos. Procure atendimento para reavaliação.
Tipos de fios e suturas: o que muda na retirada
Entender o que foi usado no fechamento da sua ferida ajuda a tomar decisões corretas. Diferentes materiais e técnicas exigem modos de remoção específicos e, às vezes, apenas profissionais devem executá-los.
Absorvíveis x não absorvíveis
– Fios absorvíveis: São projetados para serem degradados pelo organismo. Exemplos incluem poliglactina (Vicryl), poliglecaprone (Monocryl) e polidioxanona (PDS). Em geral, não é preciso retirar; eles se dissolvem com o tempo. Em algumas situações, pequenas pontinhas podem emergir na pele; não puxe. Se incomodar, mostre ao seu médico.
– Fios não absorvíveis: Precisam ser retirados. Exemplos comuns são nylon, polipropileno, seda e algodão. O cirurgião indica o momento ideal e como será feita a remoção.
Dica prática: Se você tem dúvida sobre o tipo de fio, pergunte ao seu cirurgião ou verifique o resumo de alta. Não tente adivinhar.
Padrões de sutura comuns e implicações
– Ponto simples: O mais comum. Cada ponto tem um nó individual. A retirada, quando autorizada, é relativamente simples.
– Ponto em U (Donati vertical): Usado quando é desejável maior eversão e força na borda da ferida. A remoção é diferente do simples, pois o fio “dá a volta” no tecido.
– Ponto cruzado/colchoeiro horizontal: Oferece apoio lateral; requer atenção na remoção para evitar arrastar fio superficial contaminado através da pele.
– Sutura contínua (chuleio): Um único fio percorre todo o comprimento da ferida com um nó no início e no fim. Normalmente, a retirada deve ser feita por um profissional, pois é fácil causar abertura parcial se não for bem executada.
– Intradérmica contínua (subcuticular): Geralmente com fio absorvível; muitas vezes não requer retirada.
– Grampos (staples): Precisam de removedor específico. Procure uma unidade de saúde para retirada segura.
Em todas as técnicas, a assepsia rigorosa é indispensável: um segmento de fio que ficou exposto ao ambiente pode carregar bactérias para dentro da pele se tracionado sem higiene adequada.
Como avaliar a ferida e preparar o local para retirar pontos
Avaliar a ferida e organizar o ambiente são passos decisivos antes de considerar retirar pontos. Uma boa preparação ajuda a reduzir riscos de infecção e garante que o fio deslize com mínimo trauma.
Checklist de avaliação segura (seu médico autorizou?)
– Confirme a autorização do cirurgião para retirar pontos e o intervalo adequado para sua cirurgia.
– Verifique se a ferida está seca, sem secreção, sem vermelhidão crescente e sem dor intensa.
– Observe se há crostas finas e bordas bem unidas. Isso geralmente indica boa cicatrização superficial.
– Avalie se a área não está sob grande tensão (por exemplo, juntas muito móveis). Em regiões de maior movimento, é comum precisar de mais tempo.
– Tenha um plano caso algo saia do esperado: local de atendimento mais próximo e telefone do consultório.
Se qualquer item acima não estiver claro ou se você notar sinais de inflamação, não tente retirar pontos. Busque orientação profissional.
Higienização e materiais básicos
Ambiente: Escolha um local bem iluminado, tranquilo e limpo. Lave bem as mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos, seque com papel toalha e, se possível, use luvas descartáveis limpas.
Materiais úteis:
– Solução antisséptica (clorexidina aquosa 2% ou alcoólica 0,5%; povidona-iodo se não houver alergia)
– Álcool 70% para desinfetar instrumentos se não forem estéreis
– Gaze estéril e curativos adesivos
– Tesoura fina de ponta reta e pinça limpas (de preferência estéreis)
– Recipiente para descartar fios
– Iluminação auxiliar (lanterna ou luminária)
Passos de preparo:
1. Limpeza da pele: Faça assepsia ao redor dos pontos usando gaze embebida no antisséptico, sempre do centro da ferida para fora. Use novas gazes conforme sujarem.
2. Secagem: Aguarde o antisséptico secar no tempo recomendado pelo fabricante para maior eficácia.
3. Revisão final: Reavalie a ferida com luz direta. Se notar qualquer alteração suspeita, interrompa e procure ajuda.
Nota importante: O lado externo do fio fica exposto ao ambiente e pode abrigar microrganismos. Por isso, cortar o fio o mais próximo possível da pele do lado limpo diminui a chance de arrastar contaminação para dentro.
Passo a passo autorizado para retirar pontos simples
Este passo a passo se aplica apenas quando há orientação expressa do seu médico e a ferida atende aos critérios de boa cicatrização. Em caso de dúvida, não tente. Retirar pontos é, em essência, indolor; dor durante o procedimento é um sinal de que algo não está indo bem.
Ponto simples e Donati: técnicas de remoção
Ponto simples:
1. Higienize as mãos e o local novamente.
2. Com a pinça, eleve suavemente o nó para afastá-lo da pele.
3. Identifique o segmento do fio mais próximo da pele, do lado limpo do ponto.
4. Com a tesoura, corte o fio o mais rente possível à pele, abaixo do nó.
5. Puxe delicadamente o nó com a pinça, em movimento contínuo e suave. O fio deve deslizar facilmente.
6. Se houver resistência, pare. Não force. Reavalie ou procure um profissional.
7. Repita o processo ponto a ponto, sempre reassepsia leve entre as remoções.
Ponto Donati (colchoeiro vertical):
– O fio contorna um trajeto em “U”, entrando e saindo em lados opostos.
– O princípio é semelhante ao do ponto simples: elevar, cortar próximo à pele em um dos lados e tracionar delicadamente para remover o trajeto do fio.
– Por ter percurso maior, qualquer resistência ou desconforto maior é motivo para interromper e buscar ajuda.
Dicas essenciais:
– Trabalhe com calma, boa iluminação e sem pressa.
– Nunca puxe o fio longo exposto através da pele; sempre corte rente ao ponto antes de tracionar.
– Se um ponto abrir a ferida, comprima levemente com gaze limpa e procure atendimento.
Suturas contínuas e grampos: quando procurar ajuda
Sutura contínua (chuleio):
– Embora algumas possam ser removidas ambulatorialmente sem dor, um erro de corte pode abrir a ferida.
– O ideal é que um profissional realize a remoção. Se autorizado a fazê-la: costuma-se cortar a extremidade final, tracionar com cuidado e acompanhar a saída do fio. Qualquer sinal de abertura ou dor interrompe o procedimento.
Grampos (staples):
– É necessário um removedor específico que desarma o grampo sem machucar a pele.
– Não use alicates ou tesouras comuns. Procure uma unidade de saúde.
Intradérmicos/ subcuticulares:
– Frequentemente utilizam fios absorvíveis e não exigem retirada. Se a ponta emergir e incomodar, o cirurgião pode aparar com técnica asséptica.
Lembrete: Se em qualquer momento houver sangramento significativo, dor ou dificuldade técnica, pare imediatamente e busque atendimento. Retirar pontos deve ser um processo fácil e praticamente indolor.
Cuidados após a retirada e sinais de alerta
A remoção bem-sucedida não encerra o cuidado com a ferida. As próximas 48 a 72 horas são importantes para o fechamento pleno dos orifícios deixados pelos fios e para observar sinais de infecção.
Proteção da cicatriz e rotina nos dias seguintes
– Higiene: Limpe a área uma a duas vezes ao dia com água e sabonete suave. Seque com delicadeza, sem esfregar.
– Curativo: Pode ser feito um curativo leve por 24 a 48 horas para proteger os orifícios dos pontos. Troque-o se umedecer.
– Antisséptico: Uma aplicação leve pode ser usada nas primeiras 24 horas conforme orientação médica. Evite excesso para não irritar a pele.
– Sol e cosméticos: Proteja a cicatriz do sol com roupa ou filtro físico. Aguarde liberação médica para cremes e silicone em gel.
– Atividade física: Evite esforço e movimentos amplos que tensionem a cicatriz por alguns dias, especialmente em áreas de grande mobilidade.
– Coceira e sensação de repuxo: São comuns no processo de cicatrização. Evite coçar.
– Massagem/ silicone: Quando liberado pelo cirurgião (geralmente após fechamento completo), o uso de gel/placa de silicone e massagem suave pode melhorar a qualidade da cicatriz.
Quando buscar atendimento imediato
– Vermelhidão crescente, calor local e dor que piora após retirar pontos
– Saída de secreção purulenta, odor desagradável ou febre
– Abertura parcial ou total da ferida (deiscência)
– Sangramento que não cessa com compressão suave por 10 minutos
– Qualquer dúvida sobre a integridade da cicatrização
Perguntas frequentes sobre retirar pontos
– Dói retirar pontos? Normalmente, não. Uma leve ardência pode ocorrer. Dor forte é sinal de problema.
– Posso tomar banho? Sim, após 24 horas e com autorização do médico. Seque bem a área após o banho.
– Saiu um “fiozinho” da cicatriz dias depois. E agora? Pode ser um fio absorvível superficial. Não puxe. Mostre ao seu médico.
– Um ponto caiu sozinho antes da hora. Preciso me preocupar? Se a ferida está fechada e sem sinais de infecção, geralmente não há problema. Avise seu cirurgião.
– Fumo atrapalha? Sim. O tabagismo prejudica a cicatrização e pode exigir tempo maior antes de retirar pontos.
– Em viagens, posso retirar pontos em um posto de saúde local? Sim, preferencialmente por profissional habilitado e com orientação prévia do seu cirurgião.
Erros comuns ao retirar pontos (e como evitá-los)
Evitar erros frequentes torna o processo mais seguro e preserva o resultado estético. A seguir, as falhas mais comuns e como corrigi-las.
Cortar do lado errado ou longe da pele
– Problema: Cortar o fio longe da pele e tracionar traz para dentro um segmento que ficou exposto, potencialmente contaminado.
– Solução: Sempre cortar o mais rente possível à pele, do lado limpo, antes de tracionar o nó.
Forçar a saída do fio
– Problema: Resistência indica que algo está preso, inflamado ou mal posicionado. Forçar pode abrir a pele.
– Solução: Pare imediatamente. Reavalie a direção do corte. Se persistir, procure ajuda.
Ignorar sinais de infecção
– Problema: Retirar pontos em área inflamada ou infectada pode espalhar bactérias e dificultar o fechamento.
– Solução: Diante de dor intensa, vermelhidão progressiva ou secreção, suspenda a tentativa e faça avaliação médica.
Antecipar ou atrasar demais
– Problema: Remoção precoce pode abrir a ferida; remoção tardia aumenta marcas e pode encrustar crostas ao fio.
– Solução: Siga o cronograma do seu cirurgião. Em áreas de maior tensão, confirme se o prazo é diferente.
Como planejar a retirada com seu cirurgião
A melhor maneira de retirar pontos com segurança é integrar esse momento ao seu plano de recuperação. Uma comunicação clara evita dúvidas e agiliza o cuidado.
Pergunte e anote antes da alta
– Quando devo retornar para retirar pontos?
– O fio é absorvível ou não? Há pontos internos que não precisam ser removidos?
– O que observar em casa para saber se a cicatrização está adequada?
– Posso molhar a ferida? Quando retomar atividades físicas?
– Se eu viajar, onde posso retirar pontos com segurança?
Tenha um plano B
– Anote endereços de unidades de saúde próximas à sua casa e ao local da viagem.
– Combine com antecedência caso precise retirar pontos em outro serviço, levando o resumo de alta e informações sobre a sutura.
– Mantenha fotos seriadas (limpas e com boa iluminação) da ferida, se seu médico solicitar, para teleorientação quando cabível.
Manter essas informações à mão reduz decisões improvisadas e dá mais segurança no momento de retirar pontos.
Recado final para uma cicatrização bonita e segura
A remoção dos pontos é apenas um capítulo do processo de cicatrização. O segredo está em respeitar o tempo do seu corpo, seguir a técnica correta e, principalmente, alinhar tudo com o seu cirurgião. Você aprendeu quando, por que e como retirar pontos com segurança, os diferentes tipos de fios e suturas, os cuidados essenciais de higiene e o que fazer após a remoção.
Agora, dê o próximo passo: confirme com seu médico o melhor momento para retirar pontos e agende sua avaliação. Em caso de dúvidas ou sinais de alerta, procure atendimento sem hesitar. Sua recuperação merece cuidado profissional e atenção aos detalhes.
O Dr. Alexandre Amato, cirurgião vascular, discute a retirada de pontos cirúrgicos. Ele enfatiza a importância de seguir as orientações do cirurgião e avaliar a ferida antes de retirar os pontos, observando sinais de infecção ou inflamação. Pontos não absorvíveis, como os de náilon, seda ou algodão, precisam ser removidos, enquanto os absorvíveis caem sozinhos. A limpeza do local antes da retirada é crucial para evitar infecções. O Dr. Amato explica diferentes tipos de pontos e suas técnicas de retirada, destacando que o procedimento deve ser indolor. Após a remoção, é necessário monitorar a ferida para sinais de infecção. Ele recomenda consultar o médico antes de qualquer ação relacionada aos pontos.

