O que está por trás do cálcio nas artérias e como reverter a trajetória
A sensação de “canos entupidos” no corpo assusta, mas entender o que acontece por dentro é o primeiro passo para retomar o controle. A aterosclerose é um processo inflamatório crônico que acumula gordura, células e, com o tempo, cálcio nas paredes dos vasos. Não existe truque instantâneo para “raspar” placas, porém é totalmente possível frear a progressão, estabilizar as placas e reduzir eventos cardiovasculares com atitudes certeiras. O objetivo é viver mais e melhor, com artérias limpas funcionando em plena capacidade.
Quando você age nos fatores de risco certos, o organismo responde. Parar de fumar, seguir a medicação, mexer o corpo, ajustar a alimentação, controlar a pressão e monitorar os exames diminui o ataque inflamatório às artérias. Isso estabiliza placas, reduz a chance de ruptura e favorece um sangue que flui com mais segurança. A seguir, um plano em 6 passos que funciona na vida real.
Passo 1 — Pare de fumar hoje
O que o cigarro faz com suas artérias
Cada tragada injeta toxinas que lesionam o endotélio, a camada interna que protege o vaso. Essa agressão facilita a entrada e oxidação do LDL, estimula inflamação e eleva a rigidez arterial, cenário perfeito para a deposição de gordura e cálcio. O tabagismo também aumenta a agregação plaquetária e a chance de formação de coágulos, elevando o risco de infarto e derrame.
A boa notícia: ao parar de fumar, o risco cardiovascular cai rapidamente. Em 12 meses, o risco de doença coronariana pode reduzir pela metade, e continua despencando nos anos seguintes. Além de ajudar a manter artérias limpas, você respira melhor, ganha energia e melhora a pressão arterial.
Estratégias práticas para largar de vez
– Defina uma data e comunique família e amigos para ganhar suporte.
– Converse com seu médico sobre terapia de reposição de nicotina, vareniclina ou bupropiona — elas dobram as chances de sucesso.
– Identifique gatilhos (café, estresse, álcool) e troque o hábito: beba água, mastigue chiclete sem açúcar, caminhe 5 minutos.
– Use aplicativos de cessação, grupos de apoio e linhas de cuidado do SUS ou do plano de saúde.
– Evite “só um” e cigarro eletrônico; eles mantêm o ciclo da dependência.
– Se escorregar, recomece no dia seguinte. Cada tentativa ensina e aproxima a vitória.
Passo 2 — Siga corretamente a medicação prescrita
Como a medicação protege o vaso e a placa
Medicamentos agem onde a força de vontade não alcança. Estatinas reduzem o LDL de forma consistente, estabilizam a placa e diminuem inflamação. Ezetimiba e inibidores de PCSK9 podem ser associados para metas mais agressivas. Anti-hipertensivos (como IECA, BRA, diuréticos e bloqueadores de canal de cálcio) protegem a parede do vaso contra o “martelar” da pressão elevada. Em alguns casos, o antiagregante plaquetário é indicado para reduzir a chance de trombos.
Se você tem diabetes ou pré-diabetes, classes como SGLT2 e agonistas de GLP-1 oferecem benefício cardiovascular adicional. Já o cálcio da alimentação não é o vilão da placa: não há evidência de que comer iogurte ou vegetais ricos em cálcio “calcifique” suas artérias. O que pesa é o pacote inflamatório da dieta, do sedentarismo e do tabaco.
Adesão sem falhas: como não esquecer
– Associe o remédio a um hábito fixo (escovar os dentes, café da manhã).
– Use organizador semanal de comprimidos e alarme no celular.
– Sincronize a renovação de receitas e refis na farmácia para evitar lapsos.
– Leve a lista de medicamentos às consultas e ajuste metas com base nos exames.
– Evite suplementos “milagrosos” que prometem artérias limpas: procure evidência e converse com seu médico antes.
Passo 3 — Mexa-se: o treino que protege seu coração
Tipos de treino que favorecem artérias limpas
Movimento regular melhora a função endotelial, reduz pressão, otimiza o perfil lipídico e diminui inflamação sistêmica. O alvo mínimo é 150 a 300 minutos/semana de atividade aeróbica moderada (caminhada rápida, ciclismo, natação) ou 75 a 150 minutos de vigorosa, mais 2 dias de exercícios de força.
– Aeróbico moderado: 30–45 minutos, 5x/semana (fale em frases curtas durante o esforço).
– Força: 8–10 exercícios para grandes grupos musculares, 2–3 séries, 2x/semana.
– Intervalado leve: alternar 1 minuto mais intenso com 2–3 minutos leves, totalizando 20–25 minutos, indicado para quem já está habituado.
– Incorpore movimento no cotidiano (subir escadas, caminhar ao telefone, pausas ativas). NEAT (gasto fora do treino) soma muito.
Comece com segurança e constância
Se você é iniciante, tem sintomas (dor no peito, falta de ar desproporcional, tontura) ou múltiplos fatores de risco, converse com seu médico antes. Aumente 10% por semana o volume de treino, faça aquecimento de 5–10 minutos e alongue após a sessão. Use tênis adequado e hidrate-se. O progresso sustentado, não a intensidade heroica, é o que preserva artérias limpas ao longo do tempo.
Passo 4 — Coma para desinflamar e manter artérias limpas
O que reduzir no prato
A qualidade da gordura e o grau de processamento dos alimentos pesam mais do que o cálcio da dieta. O objetivo é baixar a inflamação e o LDL aterogênico.
– Frituras, fast-food e ultraprocessados ricos em gorduras trans.
– Gorduras saturadas em excesso (manteiga, creme de leite, pele de frango, carnes gordas, queijos ultraprocessados).
– Embutidos e carnes processadas (salsicha, bacon, salame).
– Açúcares e farinhas refinadas (refrigerantes, doces, pães brancos), que elevam triglicerídeos.
– Excesso de sal (impacta diretamente a pressão).
– Álcool em excesso (aumenta pressão e triglicerídeos).
Troque por métodos de preparo com menos óleo (assar, grelhar, refogar com pouco azeite, usar air fryer com moderação) e por alimentos minimamente processados.
O que colocar mais: seu “kit anti-inflamação”
– Verduras e legumes coloridos (pelo menos metade do prato).
– Frutas inteiras (2–3 porções/dia), priorizando as ricas em fibra.
– Grãos integrais (aveia, arroz integral, quinoa) e leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico).
– Peixes gordos 2x/semana (sardinha, salmão) pelas gorduras ômega-3.
– Azeite de oliva extra virgem como principal gordura culinária.
– Castanhas e sementes (nozes, amêndoas, linhaça, chia) em porções pequenas.
– Laticínios naturais (iogurte, kefir) se bem tolerados — o cálcio alimentar aqui não “sujará” suas artérias.
– Água: 30–35 ml/kg/dia como referência geral, ajustando ao clima e atividade.
Exemplo de dia prático para artérias limpas:
– Café da manhã: iogurte natural com aveia, chia e fruta + café sem açúcar.
– Almoço: prato meio a meio (salada e legumes) + filé de peixe assado + arroz integral + feijão.
– Lanche: uma fruta + punhado pequeno de castanhas.
– Jantar: omelete de legumes com azeite + salada + uma fatia de pão integral.
– Ceia (se necessário): kefir ou chá sem açúcar.
Dica extra: 25–38 g de fibra por dia ajudam a reduzir o LDL. Comece devagar e aumente a ingestão de água para evitar desconfortos gastrointestinais. Assim você nutre o corpo e mantém artérias limpas sem dietas extremas.
Passos 5 e 6 — Domine a pressão arterial e acompanhe seus exames
Controle a pressão como um especialista
Pressão alta é um dos motores da calcificação arterial. Medir corretamente em casa dá poder de decisão. Sente-se por 5 minutos, costas apoiadas, pés no chão, braço na altura do coração, manguito adequado. Faça duas medidas, com 1 minuto entre elas, de manhã e à noite por 7 dias, descartando o primeiro dia e calculando a média.
Metas frequentes giram em torno de <130/80 mmHg, personalizadas pelo seu médico. Para alcançar: – Reduza o sal para cerca de 2 g de sódio/dia (aprox. 5 g de sal). – Siga um padrão como DASH ou mediterrâneo, que favorece artérias limpas e pressão estável. – Durma 7–8 horas e gerencie estresse (respiração, meditação guiada, lazer). – Mantenha o peso saudável e evite excesso de álcool. – Tome os anti-hipertensivos nos horários combinados; não interrompa por conta própria.
Exames que guiam seu progresso
Olhar o sangue e, quando indicado, a imagem, mostra se o plano está funcionando. Um painel essencial inclui:
– Perfil lipídico: LDL (alvo individualizado, muitas vezes <70 mg/dL em alto risco), HDL e triglicerídeos.
– ApoB (quando disponível): reflete o número de partículas aterogênicas.
– Glicemia de jejum, hemoglobina glicada (A1c) e, se necessário, curva glicêmica.
– PCR-us (inflamação), função renal (creatinina, eTFG) e hepática (TGO/TGP).
– Índice tornozelo-braquial e ultrassom Doppler de carótidas ou membros, quando houver sintomas ou indicação clínica.
– Escore de cálcio coronariano pode ser útil em casos selecionados, conforme avaliação do cardiologista.
Periodicidade típica: a cada 3 meses no início de um plano intensivo, depois a cada 6–12 meses, de acordo com metas. Registre resultados em uma planilha simples e leve às consultas. Essa visão integrada acelera decisões e ajuda a manter artérias limpas por décadas.
Feche o ciclo com um roteiro de 12 semanas:
– Semanas 1–2: defina a data para parar de fumar, ajuste remédios com seu médico, comece 10 minutos diários de caminhada.
– Semanas 3–4: suba para 150 minutos/semana de aeróbico + 1 sessão de força; troque frituras por assados.
– Semanas 5–8: atinja 2 sessões de força/semana; inclua peixe gordo 2x/semana; revise pressão e ajuste sal.
– Semanas 9–12: repita exames, compare metas e celebre avanços; planeje o próximo trimestre.
Ao longo desse período, pequenas vitórias se somam: menos pressão no vaso, menos inflamação, melhor perfil lipídico e, no fim, um fluxo mais livre — o caminho mais seguro para artérias limpas.
Trilhar esse plano de 6 passos é simples na teoria e transformador na prática. Você entendeu por que o cálcio aparece, quais hábitos mais “alimentam” a placa e como agir hoje para freá-la. Agora é com você: escolha um passo para começar ainda hoje — agende uma consulta, organize seus remédios, faça uma caminhada de 15 minutos ou reorganize seu próximo prato. Seu coração agradece, e suas artérias limpas no futuro serão o melhor retorno desse investimento.
O doutor Alexandre Amato, cirurgião vascular, apresenta seis dicas para limpar as artérias do cálcio, relacionado à aterosclerose. Primeiramente, é fundamental parar de fumar, pois o tabagismo é um grande fator de risco. Em seguida, é importante seguir a medicação prescrita pelo médico para evitar a progressão da doença. A prática regular de exercícios físicos é essencial para melhorar a circulação e reduzir a deposição de cálcio e gordura nas artérias. A dieta deve focar na redução de gorduras, evitando frituras e alimentos ricos em colesterol, sem se preocupar com o cálcio da alimentação. Controlar a pressão arterial, medindo-a frequentemente e seguindo orientação médica, é crucial, uma vez que a hipertensão é um fator de risco significativo. Por fim, realizar exames periódicos para monitorar os níveis de colesterol no sangue é necessário. Seguindo essas orientações, é possível diminuir a progressão da aterosclerose e seus impactos.

